Finalmente, como antes de começar a reconstruir a casa que se habita não basta demoli-la (...) é necessário ter-se precavido de alguma outra, onde se possa alojar comodamente enquanto nela se trabalhara, assim, a fim de não ficar irresoluto na minha conduta, enquanto a razão me obrigasse a sê-lo nos juízos, e para não deixar de viver o mais felizmente possível a partir de então, formei para mim próprio uma moral provisória, apenas constituída por três ou quatro máximas, que vos quero expor.
A primeira era obedecer às leis e aos costumes do meu país, consevando firmemente a religião na qual Deus me deu a graça de ser instruído desde a infância e conduzindo-me em tudo o mais segundo as opiniões mais moderadas (...).
E, da mesma maneira, como as acções da vida não suportam muitas vezes delonga alguma, é uma verdade muito certa que, quando não está no nosso poder discernir as opiniões mais verdadeiras, devemos seguir as mais prováveis (...).
A minha terceira máxima era procurar sempre antes vencer-me a mim próprio do que vencer a fortuna e modificar antes os meus desejos do que a ordem do mundo (...) afora os nossos pensamentos, nada há que esteja inteiramente no nosso poder (...).
Descartes (n.1596, m.1650), Discurso do Método, trad. João Gama, Ed. 70
- É proibido proibir, nestas três palavras se encerra toda a esperança, toda a auto-ironia das últimas décadas do século XX. Felizmente que transportamos connosco a dúvida, a capacidade de reflexão, o dom de nos rirmos de nós próprios. Estas coisas são como a maçã que roubámos do Jardim do Paraíso e a roupa que nos oculta, desoculta e veste. Apenas a nudez, como uma verdade unilateral e única, não nos serve.
- Feliz ou infelizmente, como peregrinos errantes no deserto, precisamos de ídolos, verdadeiros ou fictícios, para seguir e destruir, de forma insaciável e cíclica. Daqui, talvez a loucura da participação massiva nos concertos do início do Verão, o pulular das revistas, das colunas e dos programas televisivos sobre a fama e as celebridades de que, de outro modo, ninguém ouviria falar.
- Felizmente, talvez o bom senso cartesiano seja mesmo a coisa mais bem distribuída do mundo. Ou talvez não. Existe uma nova geração de pequenos ditadores e de grandes consumidores. Esta voz reclama e reinvindica, activamente, novas práticas ecológicas que vão da reciclagem ao uso de energias renováveis não poluentes... Esta voz enraíza-se bem no seio da família que temos, para além de todas as crises de funcionalidade ou de falta dela. Esta voz reinventa a família e o mundo todos os dias. Nesta primeira década do século XXI. bem podemos dizer este é o primeiro dia do resto das nossas vidas.