SEM CULTURA, SEM AFECTO
L. Borges
Apesar da recente dança de demissões – até à presente hora, do ministro das finanças, do ministro dos negócios estrangeiros, … – ainda vamos tendo governo. E teremos, seja até à marcação da data de novas eleições, seja até à escolha de outro primeiro ministro pelo presidente da república, seja até à tomada de posse de outro governo, com este primeiro ministro ou sem ele.
Ao longo destes poucos cerca de dois anos de legislatura, uma série de fronteiras quanto ao modo de ser português foram sendo ultrapassadas. E o que vem a ser esse modo de ser português. Com toda a nebulosidade contida no conceito. Uma espécie de “”democracia afectiva””, expressão que roubamos a José Gil e deturpamos e usamos aqui entre muitas aspas. Para uma cabal discussão desta ideia pelo filósofo sugerimos a leitura de Portugal Hoje, O Medo de Existir, editado pela Relógio d’Água, mais exactamente, do capítulo intitulado, Da Economia dos Afectos, em particular, da página 66.
Pela parte que nos toca, esta “”democracia afectiva”” foi sofrendo fortes abalos sucessivos que foram ecoando em ondas de choque de norte a sul, da direita à esquerda do espectro político português. O epíteto de piegas foi o início das hostilidades. A ele se seguiu o convite à saída do país, especialmente dirigido aos jovens licenciados. Pelo meio a crise foi pretexto para o empreendorismo – seja o que for que isto queira dizer - num país onde as regras, regulamentos, leis e impostos e processos e repartições disto e daquilo mais as respectivas inspecções e vistorias parecem convidar mais à fuga e a uma resiliência teimosa, por conta própria do que à criatividade e ao risco colectivo. Os convites constantes à saída de uma suposta zona de conforto - onde será que ela fica? Talvez no topo da hierarquia de algumas juventudes partidárias, prolongou o desconforto de cada uma das pessoas, no interior mesmo de cada família. Já não bastava irem-lhes ao bolso, ainda lhes roubavam os netos e os filhos.
E de repente, os membros do governo e o próprio presidente estão como que sitiados. Cercados de seguranças, encurralados em corredores estreitos, vaiados, insultados e assobiados. Com medo. Quem não o sentiria em situações idênticas. A maioria de um governo e de um presidente, supostamente de direita ou de centro direita, liberal toma refúgio nos seus valores ideológicos. Dedica-se ao corte de subsídios, do estado social. Pelo meio, fica o regresso aos valores – supostamente – familiares da Família, com a pseudo-polémica em torno do casamento gay, a polémica conflitual em torno dos professores, das avaliações e dos exames. Pelo caminho fica a terrível realidade de um país em vias de extinção real e demográfica, com honras de primeira página na imprensa internacional. Que medidas concretas estão a ser tomadas para obstar a este desastre? Será que não há no poder alguém capaz de entender que a partida de jovens para o estrangeiro, as péssimas condições de vida dos que ousam ficar estão directamente relacionada com esta morte demográfica?
Pelo caminho fica também a imagem de um presidente que não é capaz de nomear o nome de Saramago, de pronunciar o nome do único prémio nobel da literatura portuguesa num evento cultural internacional. E os cortes a tudo o que tem a ver com cultura – dependente e independente. Nas universidades, nas escolas, nas casa de cultura. Houve quem lhes citasse Churchill – durante a guerra, a necessidade de se continuar a investir em cultura, justamente por ser essa cultura aquilo mesmo por que se combate. Nada. Nenhuma empatia. Pelo caminho ficam também as ténues tentativas do ministro das finanças, dirigindo-se aos portugueses como o “melhor povo do mundo” ou procurando a estafada identificação futebolística com as vicissitudes dos benfiquistas.
Este governo morre, falece, - na praia - embora maioritário, bem amparado e sustido por Belém, por falta de afecto. Um caso de divórcio. De desamor, mesmo, entre o governo e os portugueses. Que se encontram, mais uma vez entregues à sua sorte, na orla da praia, de mãos vazias.L. Borges

Sem comentários:
Enviar um comentário