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por L. Borges
“(…) imitar o que se adora constitui toda a religião?”
Santo Agostinho, A Cidade de Deus
O que significa ser cristão, hoje. Esta é a pergunta radical e o desafio radical que todo aquele que se diz cristão – católico ou não – enfrenta. Daqui a atenção com que foi seguida a sucessão de Bento XVI pelo actual Papa Francisco. Daqui também as ondas de choque que acompanharam a actual crise política subsequente à demissão do ministro das finanças e à demissão – por ora adiada – do ministro dos negócios estrangeiros, seguida das propostas de remodelação do primeiro-ministro. No meio de toda esta tempestade, um momento de refluxo nas ondas: a cerimónia religiosa da tomada de posse de D. Manuel Clemente, como Patriarca de Lisboa. Esta investidura num cargo religioso revestiu-se de um carácter político, fosse ou não esse o objectivo simbólico.
Pela primeira vez, em meses de contestação e apupos na rua, na Assembleia da República, o primeiro-ministro e o presidente da República foram aplaudidos num espaço fechado, mas público, altamente simbólico para a pátria portuguesa: o Mosteiro dos Jerónimos, uma celebração religiosa. Para alguns, a interpretação política dos aplausos só poderia ser esta: o povo cristão seria de direita. Não obstante, esta interpretação carece de fundamento. Não colhe unanimidade e por isso suscitou polémica. Ser, parecer e ter voltam a estar na ordem do dia e bem no cerne de uma meditação sobre a soberania do país e a legitimidade política do governo. Ser governo, parecer governo, ter governo. Os aplausos que ecoaram pelas naves da igreja fundadora da ideia moderna e, ao mesmo tempo, saudosista de Portugal assimilaram também estas três palavras à reflexão em torno do que significa ser cristão, parecer cristão, ter ou não ter os bens espirituais necessários ou os bens materiais que obstam a essa pertença ao “povo cristão”.
Um dos principais factores de conversão, de respeito e de admiração pelos cristãos era, nos alvores do cristianismo, a imitação de cristo. A comunidade cristã punha em comum bens e recursos, integrava e incluía todos. O enorme sucesso e a velocidade com que se propagou a mensagem de Cristo parece estar directamente relacionada com a inclusão e emancipação dos mais pobres e excluídos – escravos, mulheres, entre outros. O cristianismo não apenas abria um caminho, como era o caminho que abraçava a alteridade absoluta. De indigentes a insolventes. Como, também de gentios e bárbaros a não circuncidados. O sucesso alcançado, muitos séculos mais tarde, por movimentos políticos revolucionários gerados directa ou indirectamente pela Revolução Francesa e pelo marxismo parecem herdeiros dos ideais do cristianismo inicial, por muito que isto pese a alguns. Liberdade, igualdade, fraternidade, são ideais que ainda hoje continuam a fazer o seu caminho pelo mundo, no coração de muitos. Liberdade de culto, liberdade contra formas de escravatura e de exploração, liberdade de consciência, liberdade como livre-arbítrio. Igualdade de todos perante todos, face às leis humanas e até às divinas. Fraternidade como construção utópica de uma cidade humana à imagem e semelhança da Cidade de Deus de Santo Agostinho, como construção de uma comunidade solidária inclusiva, onde ninguém fica para trás, de onde ninguém será excluído. A fraternidade universal, como caridade universal, entendida como S. Paulo a descreve (na 1ª Carta aos Coríntios, 1 Cor 13-14).Isto explica o drama e a encruzilhada em que se encontra A Igreja Católica actualmente. Explica também a escolha do actual Papa. A igreja Católica perde terreno na Europa e ganha-o na América Latina e em África. Em número de conversões e de católicos praticantes. Nestes dois continentes abre-se a todos, inclui. Na Europa exclui, fecha-se, encerra-se nos espaços simbolicamente fechados das igrejas. Apesar das missas campais e massificadas inauguradas por João Paulo II. Directamente ligadas com a importância dos santuários Marianos? Fica uma questão: quem ousaria dizer que o povo que ciclicamente peregrina aos milhares ao Santuário de Fátima “é de direita”? E não é esse – realmente – o povo cristão de Portugal? Ou do mundo? Ou por que outra razão seria Fátima chamada pela designação universal, cara à Igreja Católica, Apostólica e Romana, de Altar do Mundo? Ao contrário do que sucede nas celebrações dominicais dentro das igrejas, as festas populares religiosas, as procissões, as peregrinações e as romarias não têm decréscimo de crentes, no Ocidente, muito pelo contrário.
Neste sentido, Igreja é o lugar, o momento, o espaço e o tempo onde um, dois, ou três, onde muitos ou poucos se reunirem em nome de Cristo – e da sua Mãe -, imitando-os. Para muitos, a designação de religio, está ultrapassada. Seja ela meditação exaustiva em torno do princípio divino, ligação do humano ao divino, ou religação ao divino, o que pressupõe que esta ligação, em algum momento quebrada, precisaria de ser refeita, reconstruída. Para estes, muitas vezes associados a práticas New Age ou a formas de conversão ou regresso a práticas religiosas diversas do cristianismo, mais certeiro seria falar em espiritualidade, em práticas espirituais ou espiritualidades.
Não obstante, a meditação e a chamada de atenção de Santo Agostinho voltam a estar na ordem do dia. O que é a transcendência? E nós , face a ela, quem somos? Quem é “(…) Aquele que simplesmente é” ? (…) para Ele viver não é uma coisa e compreender outra, como se pudesse viver sem inteligência; para Ele compreender não é uma coisa e ser feliz outra, como se pudesse ter inteligência sem a beatitude. Mas para Ele viver, compreender, ser feliz, tudo isso para Ele é ser”. (Santo Agostinho, A Cidade de Deus (Livro VIII, cap. VI)
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