De uma promoção doutoral . – Qual é a preocupação de todo o sistema educativo superior? – Do homem fazer uma máquina. – “Qual o meio para o conseguir?” – Deve aprender, aborrecer-se. – “Como é que isso se consegue?” – Através do conceito de dever. – “Qual o modelo para tal” – O filólogo: ensina a empinar. – “Quem é o homem perfeito?” – O funcionário estatal. – “Qual a filosofia que proporciona a fórmula mais elevada para o funcionário estatal?” – A de Kant: o funcionário estatal como coisa em si instituído em juiz sobre o funcionário estatal enquanto fenómeno.
Nietzsche (n.1844- m. 1900), Crepúsculo dos Ídolos, trad. Artur Mourão, Edições 70
1. O que será educar? Levar a luz a olhos cegos?, uma impossibilidade, como pretendia Platão? Ou será que consiste apenas em recordar aquilo que, de certo modo, já sabemos. Talvez estas questões não sejam tão absurdas e anacrónicas como parecem. São, de certeza, bem mais aliciantes do que uma discussão em torno da posse de um telemóvel. Talvez tudo se resuma apenas a isto: colocarmo-nos no lugar do outro. Calçar as sandálias helénicas, medievais, americanas, afegãs ou outras. Talvez seja essa, afinal, a lição socrática e talvez seja este afinal o nosso conceito ocidental de mestre. Como ensinar seja o que for sem essa atitude?
2. Empinanço... A avaliação em voga no e do ensino – a saber provas de aferição e outras, estatísticas que medem os resultados – terá alguma coisa a ver com os métodos de aprendizagem praticados na sala de aula? Na prática, na prática, se os alunos não dominarem, na perfeição a língua portuguesa lida e escrita, para além das matérias em causa, ou ainda, em acréscimo, se não dominarem outras meta linguagens, como a matemática e a lógica, terão alguma hipótese de sucesso ou de excelência? E não deveria o êxito escolar valorizar, para além da interiorização das matérias específicas, a capacidade de reacção a velhas e novas situações, exponencialmente, a todas as situações possíveis?
3. Educamos dois tipos de cidadãos, dois tipos de “carne” para o canhão burocrático, sem meio termo que nos valha. De um lado fabricamos aquele que se destina a trabalhar numa empresa privada, do outro fabricamos aquele que se destina a trabalhar para o estado. Ambos ao serviço de todos nós. Ambos ainda a lutar pela anacrónica utopia da efectividade, que em Portugal deveria ser uma categoria económico-filosófica... E... se a bendita filosofia da avaliação do desempenho por ranking – classificação numa lista em ordem à eficácia, celeridade de resolução de processos e problemas – se alargasse, por exemplo, ao desempenho das construtoras privadas ou das câmaras municipais? Isto dito assim, sem qualquer sombra de demagogia...
Sugestão dos leitores: Pedimos aos leitores que colaborem no próximo artigo com críticas e sugestões de textos filosóficos e temas de reflexão.
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